sábado, 25 de abril de 2009

Dezembro, frio.

Consigo lembrar-me perfeitamente daquele dia. Consigo até dizer exactamente o dia do mês que foi - não te preocupes que hoje não escrevo para ti, nem para ele. Estávamos a meio de Dezembro, estava um dia tão, mas tão frio e por sorte não choveu. Saí de casa com os planos já feitos para o dia e para noite, e mal eu sabia que todos os planos iam ser alterados. Apesar do Sol que lá espreitava de vez em quando, o vento era tanto que me arrepiava até à espinha, despenteava-me de minuto a minuto, era tão frio e violento que me atacava o coração e torcia-o cada vez mais. Mas não era o vento que me torcia, eu bem gostava que tivesse sido, mas não era. Era ele - eu disse que não era para ti, nem para ele, mas não disse que não era sobre ti, ou sobre ele. - que me consomia o espírito frio, dorido e cansado. Era Dezembro, final de aulas, o espírito já só podia estar cansado, ainda para mais com todos os acidentes que ele tinha causado, o espírito só podia estar dorido. Não vou mentir e dizer que nesse dia acordei decidida a pôr um ponto final no assunto. Porque cega como eu estava, acordei, embora com menos esperança que nos outros dias é certo, desejosa que ele acordasse em sintonia comigo, que percebesse que eu estava certa, que as minhas imperfeições eram as que ele mais gostava, que era eu quem devia estar nos braços dele, que era a mim que ele devia levar a passear pela ponte, que era eu que fazia o coração dele querer dançar até caír mesmo não sendo ele um bom par nessas (an)danças. Mas como todos os outros dias, ele acordou mas não percebeu. Bem pelo contrário, nesse dia, quem acordou decidido a pôr um ponto final no assunto foi ele. Não que ele não soubesse que eu estava certa, que as minhas imperfeições eram as que ele mais gostava, que era eu quem devia estar nos seus braços, que era a mim que ele devia levar a passear pela ponte, e que era eu quem fazia o coração dele querer dançar até caír mesmo não sendo ele um bom par nessas (an)danças. Não que ele não soubesse tudo isso, porque eu sei que o coração dele sabia e sabe isso muito bem, mas ele não usa o coração, ele ama com a mente, por isso diz ele que tanto a ama, a ela. Nesse dia de Dezembro, em que o vento era frio e violento, quando eu percebi que ele tinha acordado noutra sintonia que não a minha, quis fugir dele, quis proteger o coração de mais estragos, mas sabia que não tinha força suficiente para ser eu a pôr um ponto final na situação. Quando a manhã chegou ao fim, já os planos para a noite tinham mudado, e nós estavamos a ir embora, ele decidiu, à última da hora, vir embora connosco, e mudou os nosso planos da tarde. Nunca consegui perceber, e acho que nunca vou conseguir, porque é que ele quis tanto a minha companhia, se se serviu da tarde para humilhar o coração, para o torcer até lágrimas começarem a chover, para lhe tirar (quase) toda a vida que tinha. A tarde tinha acabado, e o meu coração estava tão, mas tão despedaçado que não aguentava muito mais. Mas todos os corações têm reservas, e o meu não era excepção. Havia planos (modificados) para a noite, e o coração não se ia deixar ir abaixo.
Consigo lembrar-me perfeitamente daquela noite. Consigo até dizer exactamente o dia do mês que foi. Estávamos a meio de Dezembro, estava uma noite tão, mas tão fria e por sorte não choveu. A tarde tinha acabado e com ela levado todo o desespero que ele me tinha causado até então. Não vou mentir e dizer que nessa noite me deitei totalmente indiferente ao que a alteração de planos para a noite tinha causado. Everything happens for a reason, e para aquela alteração de planos eu já encontrei a minha razão. Mal sabia eu que ia conhecer, naquela noite, outros braços onde, dali por algum tempo, eu viria a estar, outro coração a que eu iria pertencer, que iria gostar das minhas imperfeições, que me iria levar em passeios pela ponte, e não só, outro coração que iria querer dançar até caír, talvez sendo ele um bom par nessas (an)danças. Mal sabia eu que tudo isso iria acontecer, e que outro coração ia arrastar do meu, todo o sofrimento naquela tarde causado, mesmo que por lá não ficasse muito tempo. Ironia ou não, foi nessa mesma noite, que ele (que não ama com o coração mas com a mente) decidiu pôr, não um ponto final mas sim um ponto e vírgula naquela situação - que mais tarde iria eu substituir por um ponto final bem carregado e que até hoje dura. O novo coração instalou-se no meu, e mesmo não tendo sido a estadia muito grande, foi suficiente para que quando eu saí dos seus braços, quando o meu coração deixou de lhe pertencer, quando a dança acabou e caímos os dois, ficassem marcas no coração que só o deixaram mais forte.
Mas agora, o meu coração já está a reciclar, sei lá eu por quanto tempo, mas não se arrepende de ter deixado entrar outros corações, muito menos de ter dançado até caír. O meu coração gosta muito de olhar para trás e sorrir ao ver como tudo o que acontece tem uma razão, e não guarda ressentimentos, bem pelo contrário, nutre ainda muito, muito carinho.

Hoje o coração pesava um bocadinho, mas nem por isso deixou de sorrir e até tentou dar uns passinhos de dança.

8 comentários:

Joana Éme. disse...

O novo coração instalou-se no meu, e mesmo não tendo sido a estadia muito grande, foi suficiente para que quando eu saí dos seus braços, quando o meu coração deixou de lhe pertencer, quando a dança acabou e caímos os dois, ficassem marcas no coração que só o deixaram mais forte.Caímos as duas, para o lado, nestas (an)danças do coração. Gostava de te poder dizer que estarás amanhã em sintonia com o sol e a luz e a felicidade. Gostava de te poder dizer que reciclar é como fechar gaveta - instantaneo. Eu até quando danço me lembro, olhando para trás, de quando caí para o lado, cansada e triste com o frio - o de Dezembro.
Li cuidadosamente cada palavra e cheguei ao mais fundo de ti, dei-te um beijinho no coração.
Pudesse eu segurar-te e não deixar que te pese mais, meu amor, pudesse eu.


Amo-te, Mar.

Débra disse...

Vejo pela maneira de tu escreveres neste texto que estás mais forte que nunca. E parece que o facto do teu coração estar a reciclar que está a ser um bom progresso.
Beijinho *

Tani disse...

Porque eu reconheco os teus pensamentos com um olhar, também os reconheco com uma leitura e portanto lembro-me do peso do teu coração, nesse dia frio de dezembro, em que só sonhávamos com o verao, com bob dylan e as nossas viagens (a londres? :)).


E agora o verão aproxima-se, a tempestade afasta-se e tu estas so much better than before.

V disse...

Everything happens for a reason, a razao está à vista: a força que vamos buscar dentro de nós e que nao sabiamos que existia.Sempre, haverá sempre alguem que nos chame para dançar *

Davi(d) disse...

A música é relativamente nova. Investiga os "Amália Hoje". ;D

e quanto a este texto digo que está mesmo bom Marianinha *.*
um beijinho*

F. disse...

É impossivel comentar um texto destes.

És forte, tão forte Mariana, por vezes gostaria de ter a tua força.
Estou mesmo sem palavras... *.*

Gosto muito de ti Ilsezinha do meu coração*

Claudia disse...

Ainda bem que assim escreves... eu que não assim forte fortaleço-me a ler-te.
É isso mesmo: haverá sempre alguém para nos vir buscar para uma dança nova!

Beijinho

Filipa disse...

Inspiras tanta gente, ma petite!

Ai que LINDA, LINDA!

Beijinhos, sempre muitos!