quinta-feira, 30 de abril de 2009

Cruzeiros, cruzados.

Ia no carro distraída sem dar ouvidos ao que se dizia na rádio. Vinha a fazer o mesmo caminho que faço todos os dias, ao lado do meu pai, sempre muito perdida nos meus pensamentos.
- Amanhã já vai melhorar o tempo! Até dia 9 de Maio, há um aumento gradual da temperatura.
- A sério?? O Sol vai voltar?
- Oh Mariana deves tar a brincar comigo, então não ouviste na rádio?
- Não...
- As pessoas têm de começar a ouvir mais, ver mais e sentir mais.

O meu pai pode ter em parte razão: devia começar a ouvir mais e ver mais, mas sentir mais?
Estamos as três no mesmo barco e nenhuma comprou bilhete. Empurraram-nos cá para dentro uma de cada vez, em pouco espaço de tempo.
A primeira fui eu. A princesinha que durante tanto tempo dizia não saber o que era ter um príncipe, quando lhe deram a provar desse fruto, foi a primeira a embarcar. Tem piada como duram mais as coisas que acabam do que as que começam. Andava o coração pesado à procura de outro sítio onde pudesse chorar um bocadinho que não os ombros da irmã, da mãe, do melhor amigo, da LC e dos caracóis, e mal encontra: Zás! Caem-lhe com a varinha mágica em cima. De lágrimas no canto do olho, coração arrependido ou não, pesado ou leve, lá acabou por ir ter ao destino que não devia, e quase (espero eu estar certa e que não tenha sido mesmo) que se deixava engolir pelo estômago meio vazio que já há tanto tempo assombrava.
A segunda foi a mana. A artista que provou do fruto e saboreou por alguns tempos, veio logo a seguir. Tanto tempo que passou e nem assim se conhece verdadeiramente quem nos dá a provar nem o efeito e duração do fruto. E com a mana foi assim. Provou o fruto, saboreou, e quando lho tiraram e não deram mais a provar, ela não soube por quanto tempo iria desejar mais uma trinca. Também o coração dela andava à procura de outro sítio onde pudesse chorar um bocadinho, não apenas por quem lhe tirou o fruto, mas por quem já lho tinha dado muito, muito antes e estava indeciso em voltar a dar. Mas mal ela encontra: Zás! Caem-lhe com os floreados e o palavriado pouco objectivo em cima. De olhos secos e coração frio e silencioso, lá acabou por ir ter ao destino que não devia, e por se meter em caminhos pouco abençoados.
A terceira foi a mãe. A Super-Mulher que conhecia decor o sabor daquele fruto, que o tinha provado durante anos e anos, foi a última a embarcar. Estava finalmente a emigrar para Ruas da Paz, ruas onde o Sol não precisa de brilhar para se ser feliz, ruas onde sabia que podia encontrar outros frutos, quando lhe voltam a atormentar com o sabor daquele que ela pensava que já não queria. Também o coração dela andava à procura de outro sítio onde pudesse chorar um bocadinho, pela falta que lhe fazia e ao mesmo tempo pela força de começar um novo presente, e mal ela encontra: Zás! Caem-lhe com as Kelly Keys de 'Baba olhe o que perdeu, Baba criança cresceu' em cima. De coração já ocupado, lá acabou por ir ter ao destino que não devia, e agora dói-lhe tocarem na ferida.
Tem graça como nenhuma pediu para embarcar, nenhuma comprou bilhete, nenhuma pediu para seguir nesta viagem. Mas o Sol está a voltar, e em breve os astros vão voltar a alinhar-se e o barco irá atracar noutros portos.
Quanto ao que o meu pai me disse, a minha opinião mantém-se, não quero sentir mais do que o que sinto, já me está a doer bastante ter de o continuar a sentir sabe-se lá até quando!

4 comentários:

Tani disse...

Nenhuma de nós pediu para embarcar nesta "coisa", mas aconteceu que os astros não acharam piada a verem uma familia tão feliz e decidiram fazer com que dessemos todo o valor a ter a paz no coração.

Os astros voltarão a alinhar-se porque depois da tempestade há sempre a bonança :) E venha a nossa, que já é bem merecida.

um mundo. disse...

de nada (: e obrigado, igualmente.

és sempre bem-vinda *

Joana Éme. disse...

Estamos as três no mesmo barco e nenhuma comprou bilhete.Daqui a nada, espero, vamos todas saltar fora do barco e viajar antes de avião.

Filipa disse...

ninguém pede para embarcar em novas tempestades, mas a vida não é só viver a maré baixa!

Vive muito, vive bem!

E muito aprenderás!

Enjoy the sunshine, my dear princess!