quinta-feira, 28 de maio de 2009

De Coração para Coração.

Fui pelo corredor, em passinhos pequeninos, sem fazer muito barulho e espreitei pela porta para dentro do quarto dela. Já tinha a mala feita. Estava em cima da cama, e à primeira vista parecia que estava cheia, quase a rebentar. Olhei à volta, não havia sinal de ninguém por perto, abri a porta, e sem pedir, entrei.
Olhei à volta, fechei os olhos e respirei fundo... conhecia aquele quarto como a palma da minha mão, era capaz de (me) encontrar de olhos fechados, conhecia aquele lugar tão bem, como nem a mim me conheço, tinha vindo a ser o meu porto de abrigo, desde há muito, muito tempo, tanto tempo que nem interessa. Aproximei-me da mala que ela tinha feito e que, segundo ela, estava pronta para ser levada, lá prás Terras de sua Majestade. Abri-a cuidadosamente para que não se notasse que tinha andado a vasculhar, sei que manda a boa educação não mexer nas coisas dos outros sem autorização - e não quero com isto dizer que não sou bem educada, sou bastante certinha, mas também manda a boa educação não magoar as pessoas e ninguém teve esse cuidado comigo- mas a curiosidade era maior que quaisquer valores que manda a boa educação, e maior era ainda querer o bem-estar da mana quando ela estivesse lá fisicamente longe e portanto, a preocupação de que ela levava as coisas certas era muita. Retomando, abri a mala cuidadosamente, e mergulhei num oceano de sentimentos, recordações, saudades, vontades, desejos, e por aí fora. Quis certificar-me de que os sentimentos, as recordações, as saudades, as vontades, os desejos, e por aí fora, eram os correctos. Não que eu seja alguém superior para decidir, mas já me tinha saltado à vista a razão da mala estar pesada.
A porta do quarto abriu-se repentinamente, olhei, e era ela.
- Mana, desculpa, mas isto não levas. Isto deixas cá ficar, e isto também. Não te faz falta nenhuma, só te pesam o coração. Desculpa, mas isto fica cá, porque é cá que pertence. Se vais para longe, se já não vais ter os teus fisicamente perto, não te adianta levares estas coisas contigo, só vão causar estragos e sofrimento, e eu não quero mana. Oh mana não fiques triste. Olha eu! Eu vou cá ficar, não é de uma cidade para a outra que se deixam ficar as coisas para trás, por isso tu tens de aproveitar. Não estejas triste mana, não leves isto contigo.
- Mana, também não é de um país para o outro que se deixam ficar as coisas para trás.
- Eu sei, eu sei. Mas vamos fingir que é, está bem? Pelo menos até tu chegares lá e te estabilizares. Eu depois mando pelo correio, mas não leves isto, pelo menos por agora.
Sentamo-nos no jardim do palácio, fechamos os olhos, demos as mãos e deixamos que os nossos corações falassem aquilo que precisavam de falar.
- Mana, em assuntos do coração nunca se tem a certeza. Nunca se sabe se já se está a reciclar, se já se reciclou, se ainda se gosta ou não. Em assuntos do coração não se racionaliza. Mas tens de pensar pelo coração, se tu achas que o coração está magoado de mais, então não deixes que se continue a magoar. Não estejas à espera de sim nem de não, porque podes não chegar nem a sim nem a não, pode não haver mais caminho por essa estrada sem ter avisos de que o caminho termina por ali. Por isso não esperes mana. - disse-me ela.
- Está bem, eu não vou continuar a esperar. Prometo que não vou continuar a esperar. Mana, se um coração é capáz de gostar muito de outro, é forte o suficiente para se curar, portanto não fiques triste por teres saudades, não fiques porque isso é bom.
Ficamos ali, de coração na mão a deixar que o tempo cure tudo o que há para curar.

I don't know how to love you more,
cause I already love you so much Sis. *

4 comentários:

F. disse...

Que bonito :')

Meus raios de sol *.*

Tani disse...

11 horas disse eu? cá estou :P

Baby, não sei que te diga, tu vês mais que a Blimunda, vês para alem das minhas vontades.

E estavamos, estavvamos mesmo a precisar de um bocadinho, no cantinho, a falar do coração, já chegou os dialogos em silencio, á coisas que o silencio nao explica.


O quanto eu te amo é uma dessas coisas *

Tani disse...

"Ficamos ali, de coração na mão a deixar que o tempo cure tudo o que há para curar."


Estás a ficar sábia de mais, mana mais nova ;)

Claudia disse...

Coração na mão...sim, por vezes deixamos o nosso coração nas mãos de quem não sabe cuidar. É melhor assim. É que melhor que fique nas vossas mãos que de certeza essas não o vão estragar!
Beijinho